Ele pode passar de um metro de comprimento, vive dentro de um tubo rígido e tem aparência de verme — mas o chamado verme-gigante é um molusco bivalve. O nome científico usado no estudo de 2017 é Kuphus polythalamia, um parente distante dos moluscos conhecidos como “vermes-navais”. O que surpreendeu os pesquisadores foi tanto o tamanho quanto a forma como o animal obtém alimento.
Um molusco em um tubo
Os vermes-navais pertencem a um grupo de bivalves cuja concha é reduzida e modificada. Em muitas espécies, o animal perfura madeira submersa e a digere com ajuda de bactérias. Kuphus também vive protegido por um tubo calcário, mas os exemplares estudados foram encontrados em sedimento marinho escuro, rico em matéria orgânica, em águas rasas das Filipinas — não em uma fossa oceânica profunda.
O estudo descreveu espécimes com cerca de 155 centímetros de comprimento e até seis centímetros de diâmetro, tornando-o um dos maiores bivalves conhecidos. O tamanho impressiona, mas a anatomia conta uma história ainda mais curiosa: o sistema digestivo era reduzido e havia poucos sinais de que a madeira fosse a principal fonte de nutrição do animal adulto.
Bactérias ajudam a sustentar o animal
Nas brânquias, pesquisadores encontraram bactérias que oxidam compostos de enxofre e usam a energia obtida para fixar carbono inorgânico. Os compostos orgânicos produzidos pelas bactérias podem nutrir o hospedeiro. Portanto, é mais correto dizer que o molusco depende de uma parceria microbiana associada a compostos sulfurados do que dizer que “come enxofre”.
O estudo também encontrou sinais de bactérias relacionadas à digestão de madeira em níveis muito baixos. Os autores propõem que a linhagem de Kuphus pode ter evoluído a partir de ancestrais que perfuravam madeira e que esse ambiente talvez tenha servido como etapa para a adaptação ao sedimento. É uma hipótese evolutiva apoiada em anatomia e microrganismos, não uma transformação observada diretamente.
O que ainda falta descobrir
A pesquisa principal analisou cinco espécimes, e algumas medições foram feitas em um número ainda menor. Um estudo posterior encontrou indivíduos menores associados à madeira e sugeriu que diferentes fases da vida podem usar habitats distintos, mas o ciclo de vida completo permanece pouco conhecido. Também há perguntas sobre alimentação, reprodução e distribuição geográfica.
Assim, o “verme-gigante” é um exemplo de como uma parceria entre animal e micróbios pode sustentar formas de vida em ambientes incomuns. Ele não é um verme verdadeiro, não vive necessariamente em águas profundas e não se alimenta simplesmente de enxofre: cada uma dessas simplificações esconde uma biologia mais interessante.



